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O mesmo tipo de amor torto



 Ele dirige na grande avenida Brasil, perdido na música do Tiago Iorc que toca no som do carro, contornado por outros vários carros no engarrafamento quilométrico e pensando nela. Ele não dorme na praça, não é acordado por guardas e nem está tão carente assim, mas uma coisa ele tem certeza: sente o amor mais puro do mundo. 

 Ela no entanto, está no meio da aula na faculdade. Estão todos no laboratório estudando moléculas ou partículas de algo que no momento não tem importância. "Hoje o dia me surpreenderá", é o que ela diz todos os dias a si mesma. 

 Ambos estão com o corpo em um lugar e a mente em outro. Ele guarda os ingressos do cinema do dia em que saíram juntos pela primeira vez, ela guarda as mensagens no telefone, os desenhos e fez uma pasta no celular com a playlist de músicas que a lembra dele. Eles se gostam, eles sabem disso. Ela sabe disso! Ela sabe que tem que aproveitar mais dele, mas sua insegurança sempre a remete ao passado e a prende na nostalgia. Ela para, pensa, sente, sofre, chora, lava o rosto e finge que nada aconteceu.

 O tempo passa e ele planeja mais uma vez mostrar o quão romântico pode ser, ela no entanto só pensa em como pode mostrar que está pronta para  amá-lo, por mais que nem ela mesma tenha certeza de que tem forças para fazer isso outra vez. É incrível o quanto os fantasmas do passado conseguem nos assustar ainda. O mundo girou, a vida rebobinou, os sonhos realizaram e ela ainda está com medo do amor. 

 O pior é saber o quanto ele pode a amar, o quanto ele fica feliz com ela e ela não se permite o mesmo. Ela não se permite gostar de alguém por que sabe que tudo mais cedo ou mais tarde tem um ponto final. Ela ama, mas não sabe amar.

 Ela cobra muito de si mesma, mas acha injusto cobrar algo dele. Ela sente ciúmes, mas detesta o ciúmes dele. Ela abandonou as amigas e se pergunta por ele ainda não abandonou os dele. Não acha que ele a trai, mas é ela que faz isso consigo mesma. Ela confia nele, mas nela mesmo, nada. Ela sente as tais borboletas no estômago, mas acha que ele não merecia sentir-las também. Ela acha que não merece alguém como ele... E ela tem razão...

 Ele sempre sofreu muito por 'amores-não-correspondidos' e agora que ele tem quem o ame, sente que ela tem um sentimento pela metade. Ora amor e ora ódio. Ora carinhos e ora despressos. Ora beijos e ora acha que vai levar facadas. Ele merece um amor, daqueles de cinema. Daqueles que há final feliz. Mas cá pra nós, ele também tem medo. Se entrega deixando um pé na frente e outro atrás, se deita pensando se deve procurá-la, mas acaba deixando o orgulho vencer. "Se ela quiser, ela quem me procure" e acabam se vendo sem querer no mesmo banco de parque de sempre e vão para um café que fica a três quarteirões dali, onde se conheceram. As mãos dele suam, o coração dispara e as pernas bambeiam... Mas ele não merece alguém como ela, ele merece mais...

 Sabe o que os segura nesse mundo de incertezas? O amor! E eu não acho isso muito justo. Quando a gente entra num novo relacionamento, tem que deixar os outros para trás, como aprendizado. Ela se prende as tais coisas que nem deveriam a atrair. Ela se deixa levar por coisas que deveriam estar longe. 

 As vezes temos relacionamentos que significaram tudo pra nós um dia, mas acabou. Acontece.  Temos que ter em mente as boas e as más lembranças de ambos, porém o que importa é o que eu tiramos disso tudo. Vamos aprender a separar as coisas. É ex my love? Então, ex tem a cara do passado.

 O que ficou pra trás, está lá atrás. É certo, ainda temos incertezas, medos e afins, mas é preciso se permitir. Ninguém entra num relacionamento atoa. A gente tem que ser corpo, alma e coração, principalmente coração, se não a gente destrói um relacionamento por causa de um tipo de amor torto que deveria estar esquecido.


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